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GERAL

A vergonha não tem nacionalidade

O que sangra em Bernardo de Irigoyen, Barracão e Dionísio Cerqueira machuca a região inteira.

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A vergonha não tem nacionalidade
Junior Vieira

A vergonha não tem nacionalidade


Por Junior Vieira


Confesso que pensei muito antes de escrever esta crônica. Não porque faltassem palavras, mas porque, depois deste domingo, qualquer palavra parece pequena diante da pequenez moral que vimos na nossa fronteira.


Primeiro, a cena grotesca de uma criança com um isqueiro na mão ateando fogo na bandeira do Brasil. Que tipo de futuro estamos desenhando quando a primeira lição de pátria que ensinamos às novas gerações é o ódio? Depois, vídeos de um brasileiro sendo espancado. Mais tarde, o rastro de sangue: um policial argentino e uma mulher esfaqueados em Bernardo de Irigoyen, com a violência transbordando até a emergência do Hospital Municipal de Dionísio Cerqueira.


As circunstâncias a polícia investiga. O estrago cultural e a vergonha quem paga somos nós.


Não escrevo para descobrir quem deu o primeiro soco, nem para defender bandeira A ou B. Escrevo porque senti vergonha. E a estupidez humana não tem nacionalidade.


Escrevo de Santo Antonio do Sudoeste. Quem vive na fronteira sabe que notícia ruim não respeita marco divisório. Ela atravessa ponte, aduana e rotina. O que sangra em Bernardo de Irigoyen, Barracão e Dionísio Cerqueira machuca a região inteira. Antes de qualquer linha no mapa, nós somos fronteiriços. E quem é daqui sabe que a vida se move por outra engrenagem.


Nós compramos de um lado, vendemos do outro. Trabalhamos aqui, empregamos lá. Fazemos famílias, dividimos o pão, o vinho, o remédio e o gás. Somos bairros da mesma cidade. A nossa convivência não é discurso bonito de palanque: é sobrevivência e história de décadas.


Existe uma luta árdua das nossas lideranças para conquistar a aduana 24 horas, para destravar as filas, para libertar os caminhões e fazer a economia girar sem amarras. Aí vem um punhado de irresponsáveis, movidos por fanatismo cego, e destrói o trabalho de anos. Cada ato de selvageria é munição de prata entregue de bandeja para burocratas de capital dizerem que a nossa fronteira é perigosa, violenta e que precisa de mais muros e trancas. A barbaridade de alguns custa o progresso de todos.


Como noventa minutos de futebol conseguem apagar gerações de convivência? Queimar bandeira não é patriotismo, é ignorância. Esfaquear alguém por causa de jogo não é amor à camisa, é falência moral.


Você acha mesmo que algum jogador milionário da seleção vai saber o nome de quem foi parar no hospital? Claro que não. Mas nós saberemos. Porque amanhã os holofotes da TV se apagam e os craques vão embora, mas nós continuamos morando lado a lado. A geografia não muda. O brasileiro vai continuar cruzando a linha, o argentino também, as portas do comércio vão abrir e as crianças vão cruzar a rua juntas.


Não escrevo para dar lição de moral. Escrevo consternado, como alguém que ama esta terra e se recusa a aceitar que a selvageria passe a ser o nosso cartão de visitas.


Da próxima vez que a rivalidade tentar falar mais alto, lembre-se: a partida acaba, mas o vizinho fica. O respeito precisa durar mais do que noventa minutos. No fim das contas, a vergonha de domingo não foi do Brasil e nem da Argentina. Foi da nossa incapacidade de lembrar que, do outro lado da linha, não existe um inimigo. Existe apenas alguém que amanhã estará, novamente, trabalhando e vivendo ao nosso lado.


Junior Vieira


Jornalista – MTE nº 0013503/PR


É assim que eu penso.


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