Alucinação
A força fez aquilo que a força sempre faz.
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A força fez aquilo que a força sempre faz.
Alucinação
Foi sofrido. Tinha 10 anos em 76 e vivia a fome dos rurais, mas via o brilho da esperança em um céu de vidro. Asfaltando sonhos desafetos em canteiros de concreto, crescendo na ilusão de andaimes salariais. Hoje ainda piso firme no chão da realidade das esperas, na sombra das altitudes da ganância, o tempo com seu ácido oxidou a esperança no ocaso dos meus olhos.
"Eu não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo" e o que aconteceu eu lhes digo: O meu filho chegou e insistiu que eu não poderia deixar de assistir ao show de comemoração dos 50 anos de Alucinação. "Senti a ferida viva do meu coração." "Você pode até dizer que eu to por fora, mas é você que ama o passado e que não vê." "Minha dor foi perceber que apesar de tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos Como Nossos Pais."
Frustração foi perceber que os nossos ídolos, os dos pais do Belchior, dele, meu e dos meus filhos, ainda são os mesmos. O Belchior protestava sobre a ditadura e a falta de atitude da juventude, há 50 anos. "No planeta juventude, haverá vida inteligente?" essa juventude que foi engambelada com a frustração. "Depois dele não apareceu mais ninguém" e o meu filho fez bem aplaudir aquela maravilha. "Não sou um reles conformista," Mas eu me pergunto e daí? O que foi que eu fiz pra melhorar o mundo. Vou lhes dizer, mas "não se preocupe com os horrores que eu lhe digo." "Isso é somente uma canção, a vida realmente é muito pior." A engrenagem que ordena o mundo é muito pior. A juventude está pior. Os políticos estão piores. As religiões estão muito piores... Mas o que eu fiz de bom foi despertar a consciência que o Mecanismo não vai permitir eu mudar o mundo. Nada muda, ou não sou eu que vou mudar. Abandonar as fantasias. "A alucinação é suportar o dia-a-dia," e a alegria só se vivência "nas experiências com coisas reais." Sou um "Gandhi dandy, um grande - milionário socialista - de carrão, chego mais rápido a revolução."
O disco Alucinação, faz 50 anos de lançamento. Foi provavelmente o melhor disco que eu conheci. "Já era moda em 76" reclamar da passividade da juventude e da política. Há 50 anos já lamentava que os ídolos são os mesmos e ainda São, saindo da multidão que rumina sertanejo. Olhando o fato no "3/4 da fotografia" a radiografia mostra os jovens quanto mais pro Sul, "mais desnorteados." Neste disco a lendária música "Como Nossos Pais" sempre foi um farol a guiar meu inconformismo político e social. Não tenho ilusão. Não sinto um bom "cheiro vindo da nova estação." Por isso vou ficar clandestino na multidão da "cidade e não vou mais voltar pro sertão."
"O tempo negro" veio e ficou e me ensinou que a "força fez aquilo que a força sempre faz." Eu que "tenho os olhos úmidos de ler o Pessoa," encarei numa boa. Hoje tenho 55 anos de América do Sul e desilusão, mas aprendi que "qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa." "Viver é melhor que sonhar." Mas é preciso encarar que o tempo não muda, o mundo pode até melhorar, mas o ser humano não. Então a "violência da noite" e o profeta laranja do terror prenuncia que a força fará aquilo que a força sempre faz. Amar, mudar as coisas, jamais. As futuras gerações continuarão com o mesmo refrão: "apesar de tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos Como Nossos Pais."
Nota de Falecimento
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