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GERAL

Bolichos, cantinas e bodegas

A história do mundo armazenada nesses templos sagrados.

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Bolichos, cantinas e bodegas
Paulo Ademir Braun

Bolichos, cantinas e bodegas 


O bolicho é de origem espanhola, para a fronteira do Brasil e Argentina definia a mescla de cantina e bodega, via de regra moldou a nossa cultura e dava a estrutura para o contrabando. Comércio sagrado entre dois povos irmanados na luta pela sobrevivência. Por mais que a gendarmeria dificultava ninguém via o comércio que ali se fazia, como um delito, uma contravenção. Era o ganha-pão sagrado, onde o santo milagreiro era o chibeiro, pra esperança dos mascates às avessas, que traziam história de longe, mas chegava de mãos vazias, compravam banha e farinha e se ia revender.


Nunca se deu e nem hoje se dá a verdadeira dimensão ao coração do mundo, que fica naquele lugar: a fronteira seca entre Brasil e Argentina. Mais de 400 anos de disputas entre portugueses e espanhóis, brasileiros e argentinos, para definir esse ponto da divisão do mundo. Os Estados Unidos nunca respeitaram fronteira, mas ali só foram convidados a arbitrar, o que cada país deveria respeitar. O Dionísio Cerqueira elaborou o acordo, Presidente Cleveland foi o mediador e o Barão do Rio Branco relatou para o congresso aprovar. Por fim, em 1903 foi demarcado o traçado que definiu o meio do mundo. Quem não conhece, precisa ir lá para ver.


De criança, a minha mais remota lembrança é da bodega do Vicente Reis, ainda antes que eu mudei pra fronteira. Lá na fronteira, sim era o paraíso. Tinha uma bodega a cada final de estrada, e ao cruzar as picadas, entrando na Argentina, tinha as cantinas, na época que cheguei, eram 6. A cantina do Seu Lopez era a primeira, no cruzar a fronteira, outra da sua cunhada Dona Ingracia. Do Kiko e Roberto Grandona, depois a do seu João Baes. A mais longeva, simpática e tradicional foi a cantina da Serenita e Miguel Figueró. A cantina da Dona Rosa era a última da linha Telina. Voltando da Argentina tinha a tradicional bodega do Seu Mídio, na linha Calvário, que seguindo o calvário, nem a localidade existe mais.


 O primeiro bodegueiro que eu conheci quando cheguei ali, na fronteira, em 1972, foi o seu Pedro Gaspar Martins, Marido da dona Ana, que eu fui visitar está semana em Pomerode.  Naquela época também tinha a bodega do Seu Ciro e a mais antiga e tradicional, a bodega do Seu Deboni, onde eu tomei o meu primeiro pileque, ainda muleque. Depois teve a bodega do seu Hélio e a mais emblemática e versátil, a bodega do Seu Célio, que remonta os tempos de glória, daquela terra Escondida no repecho da fronteira. Como diz o ditado "mais curtido que bodegueiro de fronteira" o seu Célio tinha alma de bolicheiro. No terreiro tinha rinha de galo, quadra de vôlei e campo de futebol. Mercearia, prosa, cachaça, cantoria e muito jogo de baralho e nos finais de semana, o galpão virava cinema, na parceria do Vitão. Pensa num tempo bom e hoje aqui na cidade, só saudade.


Bodega, para quem não teve o prazer de conhecer, é como o coração, responsável pela pulsação da comunidade.  Em geral é um salão dividido por um balcão puído, riscado de faca, onde o freguês é atendido ou servido com um trago de cachaça e o Bodegueiro é uma espécie de psicólogo campeiro, juiz e fiador, professor em fazer a leitura sobre as intenções de qualquer criatura. Bodega é um templo sagrado. Seja quem for e venha de onde vier, tendo bodega, já se tem um lugar pra chegar. 

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