Cilada Cilindrada
Motoqueiro: usa a moto como veículo de trabalho. Motociclista: usa a moto como veículo de lazer.
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Motoqueiro: usa a moto como veículo de trabalho. Motociclista: usa a moto como veículo de lazer.
Cilada Cilindrada
Pra que fiquei claro: não existe escuro, só ausência de luz. A loucura é uma mancha escura, na razão? A razão fica no claro e a loucura, na parte escura. Não existe um muro entre o lado claro e o lado escuro. Minha mente vaga quando se apaga o lume, mas como de costume, pude perceber que enlouquecer é correr atrás de 'vaga-lume'. Quando falta luz é mais fácil enxergar o que me falta ou o que me farta. Toda vez que a luz se apaga, a razão divaga ao passar esse túnel.
A minha solidão, no escuro, procurando explicação para aversão a moto e motociclista. Centauro metalizado, carregado de esteriótipo. No túnel do passado, nem tudo passa e a desgraça apareceu. Eu lembro bem como foi que aconteceu. Talvez eu já conhecia moto, mas não lembro. Não fazia a menor ideia da desgraça que trazia. Hoje em dia é mais fácil de perceber. Andam em bandos, motociatas, frotas, comboios... Sou estradeiro e observador político, sei dos riscos. Mas naquele dia, deveria ser no verão de 1983. Como cobra mal mata, fazendo Zig Zag na estrada, apareceu aquela máquina estranha. Sem previsão, como a chuva de verão, que justo naquela tarde, armou toda a confusão.
Motociclista, castelhano, com moto castelhano, no barro da quela estrada mal cuidada, querendo fazer uma travessia clandestina para a Argentina, era prenúncio de problema. Cilada anunciada em todos os elementos. Era uma moto grande, não lembro a marca nem modelo. Lembro de umas bruacas acopladas, sem atinar para o conteúdo. Tinha tudo pra dar errado. A malandragem x a inocência, ignorância e ganância, fizeram o molho e o tempero.
Eu lembro que era eu, o seu Nego Quadros e mais 3 guris, que agora descobri que um destes era o Ari, os outros dois eu não lembro. O castelhano, malandro chegou e negociou com o seu Nego: 100 mil cruzeiros pra vocês me ajudarem chegar lá no topo da divisa. Dinheiro que não se via, na luta de peão por dia. Coisa de 2 salários mínimos atualizados. Todos nós metemos a mão como quem não tem outra opção para salvar o pão. Empurrando, arrastando e principalmente sujando os trapos. Em pouco tempo ficamos parecendo uns tatus, todo embarrado. Coitado do seu Nego que levou uma pedrada na canela, levando as sequelas pra sepultura, e desfalcando a força do grupo.
A empreitada era sobre humana. Não damos conta de conseguir subir o morro, só com a força das mãos. Chamamos alguém da vizinhança que tinha uma égua de tração, acostumada a arrastar carga na peiteira. 50 mil cruzeiros foi a oferta para o cavaleiro.
Uma tarde toda nesta pendenga. Um trecho de 2 km e muitos tombos, mas chegamos no topo do morro, na divisa. Na embocadura de uma picada clandestina que adentrava a Argentina. O tipo malandro foi enrolado. Pedindo pra nós ajudar a tirar o barro dos paralamas, conseguir um pouco de água pra lavar o assento e o tempo foi passado, já anoitecendo o seu Nego se afastou para dar uma mijada. O sujeito disse que tinha pago ao seu Nego e que ele iria acertar com todos. O tipo ligeiro, ligou a moto e foi embora. Até agora ninguém viu a cor do dinheiro.
Quando o seu Nego voltou do mato e pintou o retrato, o cavaleiro saiu em disparado por aquela trilha de terra colorada, que mesmo molhada, não fez nada para segurar o caloteiro. A calejada esperança foi morrendo desesperada como aquele maldito som que foi sumindo pela estrada.
Tem mágua que não se apaga. As chagas podem ficar esquecidas mas a vida é decidida nas referências e experiências. Nada contra motoqueiro. Já motociclista, motossiata ou mesmo frotas e comboios... Mantenho distância segura, da curtura e da sonoridade.
Nota de Falecimento
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