Gincana sobre as almas curitibanas
Dalton Trevisan
Ateu, assim como eu, não me surpreendeu quando fiquei sabendo que ele morreu. Surpreso fiquei quando fui ver a casa abandonada, que já estava ocupada por um sujeito do apelido: Vampiro de Curitiba. É a vida. Sou fã do Dalton Trevisan, a mais perfeita e discreta tradução, da cidade sorriso cínico. Um ícone da literatura pura que retrato a arquitetura sombria desta cidade fria. Fria foi o Dalton encontrar a guria mais bonita, morando na casa do eremita. Esmeralda, seus olhos verdes e a cabrita chegaram primeiro. Por muito pouquinho, o vampiro seria meu vizinho.
Acontece tanta coisa por aqui que eu fico na dúvida se já morri. Os que vivem bem além do bem e do mal, ao passar, passam pra Clervaux. Clervaux é o paraíso merecido por ter Vivido. Se o sujeito é excelente, mas não é crente, vem pra cá. Vem Kafka, Sartre e Simone de Boauvoir. Hepátia de Alexandria, Feuerbach, Camus além de Raquel de Queiroz, Oscar Niemeyer, Johann Lenon... e agora Dalton Trevisan. Ele me falou que não morreu. Veio pra cá pra acompanhar o Jaime Lerner, no lançamento do filme Megalopolis. Vai ficar só porque não quer participar do centenário.
Lhe contei de quando eu cheguei a Curitiba. Foi no dia 8 de março de 87, a noite, um domingo. Na televisão, o Show da Vida, apresentava uma canção que me chamou a atenção. Terra de Gigantes, os Engenheiros diziam: 'Hey mãe, alguma coisa ficou pra trás. Além do mais, nesta terra de gigantes, trocam vidas por diamantes. Lá fora todo mundo é uma ilha'. O Dalton insistia e eu não entendia o mesmo que a música dizia: 'só me acorde depois que o sol tiver se posto. Eu não quero ver meu rosto'. Antes do dia amanhecer eu fui caminhar no jardim botânico. Ao lado da favela do Capanema. Fui aprendendo que o que parecia coisa de cinema escondia o que eu não via na TV.
Aos poucos eu fui aprendendo que a vida não é somente uma canção e a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante. Distante eu era apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro. Não sou trapaceiro e rápido tive que me acostumar com os horrores que eu lhes digo, pois a vida é diferente, realmente a vida ao vivo é muito pior.
Do alto do santuário de Nossa Senhora de Lurdes eu logo enxerguei a realidade do avesso do sonho bom de cidade. Mas a elegância discreta das tuas meninas permaneceu até eu conhecer A Polaquinha. Minha amiga de cursinho. Transparente, tal qual o inocente avental de enfermagem. Eu não tinha coragem nem pra pensar bobagem, até o a noite que a gente se encontrou n Metrô e ela me contou... Uma história que o Dalton já sabia. Parecia que ele queria aprender 'Como é o negócio'? O Abílio, meu amigo sabia o segredo e o sinal pra ser tão assertivo. Truque é coisa do Dalton. Certo é que o vampiro continua vivo.