Fordlandia
Uma aventura épica. Um fracasso exemplar.
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Uma aventura épica. Um fracasso exemplar.
Fordlandia
Depois de percorrer o pior trecho da BR 163, mais 50 km de uma difícil estrada de terra, cheguei a Fordlandia, a cidade abandonada. Já era noite. Por ser a mais singela, optei pela pousada da dona Glaide. A dinâmica neta Tainá, me acomodou e me explicou que quem sabia tudo e iria me ajudar era o professor Magno, o qual ela procurou logo que chegou ao colégio, pedindo pra me procurar.
Magno, dispensa apresentação. Nasceu predestinado. O professor Magno é herdeiro do verdadeiro patrimônio de Fordlandia. Muitos antigos funcionários ficaram com as casas e seus descendentes ainda habitam nelas. De valor inestimável, mas quem conhece sabe o valor que tem e o professor Magno conhece como ninguém. Os americanos escreveram a sua história e a mídia conta como lhe convém, mas o professor Magno não se contentou. Fez faculdade, pesquisou, se preparou pra realmente conseguir entender o valor que tem o conhecimento, que é tão fabuloso quanto foi o experimento de construir essa emblemática cidade. Pena que vivemos numa medíocre sociedade capitalista e a vida é paga em moeda real, e o que realmente vale em Fordlandia, ou no Brasil como um todo é difícil monetizar.
Mesmo Henry Ford, um dos maiores empreendedores da história, ele conseguiu até explorar, mas não subjugar a natureza. Todos os indícios e as evidências mostram que a construção de Fordlandia não era um projeto de exploração, mas sim um projeto de longa duração ou definitivo. Uma espécie de transplante de uma experiência vivida na América do Norte, uma sociedade capitalista adoecida, grosseira... Fruto do capitalismo que o próprio Henry Ford ajudou a criar, e da qual ele queria se livrar.
Fordlandia, hoje ainda tem um simbolismo e a própria Ford deveria enxergar. Deveria voltar lá, recomprar o que puder e recuperar. Construir um complexo turístico, recepcionar e acomodar quem quiser se aventurar e Se enriquecer. Tô pra ver outro lugar tão singular e adequado para sepultar o próprio espírito do capitalismo.
Já havia 50 anos que a biopirataria britânica, liderada por Henry Wickham, tinha roubado 70 mil sementes dos seringais brasileiros e levadas as colônias britânicas, na Ásia, conquistando o monopólio da indústria da borracha. Os seringais brasileiros tinham menos de 3% da produção. O governo brasileiro queria ampliar os seringais e fez um grande estudo geológico mostrando que aquela região tinha preciosidades e minerais pra garimpar, embutir e exportar, madeira. Extrair látex para atrair os interesses americanos.
O plano foi desenvolvido, financiado e posto em prática pela Ford Motor Company e assim há quase 100 anos, dois navios americanos carregados de equipamentos, aportaram na costa do Rio Tapajós, no Pará, onde em pouco tempo foi construída a cidade de Fordlandia, no meio da floresta amazônica.
Fordlandia foi uma cidade planejada e organizada conforme o conceito que ficou conhecido como fordismo. Uma cadeia de produção. Tinha hierarquia nos bairros, ruas e construções. Por exemplo: na mesma rua os encarregados moravam no lado de cima, em casas mais sofisticadas, que as casas dos trabalhadores do lado de baixo (trabalhadores brasileiros na absoluta maioria, que ensinaram e apavoraram a hierarquia com uma revolta emblemática). As casas todas vieram prontas, no estilo americano e foram montadas nos locais.
Fiquei impressionado com a conservação e a qualidade dos materiais com os quais foram construídos o armazém do porto, as fábricas, caixa d'água, convento... A rede elétrica subterrânea mais antiga do Brasil. O hospital mais sofisticado de toda a América Latina e as escolas só ensinavam português demonstrando que o projeto era de adaptação e permanência.
Os trabalhadores recebiam o dobro da média e a companhia contratava especialistas a peso de ouro e trazia para a floresta, com suas famílias e seus hobbies, chegando a construir um campo de golfe para agradar gerentes e cientistas. Mas a Mata mata. A selva assusta com suas doenças tropicais que vão fazendo vítimas ocasionais espalhando o medo, que quando chega, não dá sossego.
As ruínas de uma cidade exemplar contam essa história que não foi nem de fracasso e nem de glória. Poder olhar para a natureza das coisas, pela ótica da tentativa executada e ler nas consequências o resultado. Aprender com a experiência do peso da Ford e do Henry e entender que a natureza tem a sua força instalada pelo tempo e não se curva a aventureiros.
Minha alucinação com o experimento de Fordlandia foi coisa rara mas nada se compara com a experiência de conhecer o cemitério que fala e conta a história desta jornada. Eu conheço o lindo cemitério dos ventos, e o cemitério americano, em Luxemburgo. O cemitério de Hierapolis, com 2000 anos e o túmulo de Atatürk, na Turquia. Da Chacarita e o mais exuberante da Recoleta, em Buenos Aires. Mas os ares do cemitério de Fordlandia tem outra dimensão. Tem alma de cemitério e espírito de museu. É um cemitério diferente e tem uma atmosfera potente, preservando vivo o simbolismo do capitalismo, de tratar gente como número, enfileirando cruzes, ostentando o número do crachá até depois de enterrar.