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GERAL

Fronteira

Quisera ser repórter e apenas retratar, sem drama nem poesia a magia das histórias deste lugar.

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Fronteira
Paulo Ademir Braun

Fronteira para l.


O patrão.


A Argentina é o principal vizinho. A divisa com a Argentina é a principal fronteira do Brasil. O Brasil só tem 13 km de fronteira seca com a Argentina. Essa divisa está na crista da colina que faz o divisor de água. Esse é o ponto mais significativo de todas as fronteiras do Brasil. Hoje eu quero falar deste lugar absolutamente especial. Mais ou menos como se fosse mostrar a coluna cervical. As 7 vértebras que sustentam a cabeça. A parte mais alta da fronteira. Essa serra encantada, puxada pelas nascentes, do Rio Santo Antônio até a nascente do Rio Peperi. Depois de algumas contendas entre brasileiros e argentinos, esse trecho de divisa foi definida por Grover Cleveland, o único sujeito a ser 2 vezes presidente dos Estados Unidos.


Esse é o lugar, mas eu quero falar é da gente da fronteira. Da importância e da relevância das pessoas para a construção e a valorização da vocação deste lugar. Algumas voltas pra chegar onde eu quero chegar, que é na Cidade dos Velhos. O proprietário era o seu José Lopes, José Biriva como era conhecido. Sujeito extrovertido, mais curtido que barril de cachaça. Boa praça e boa vida, mas forjado na lida. Nasceu em Campo Erê SC. Perdeu o pai assassinado, aos 8 meses. Estava nos braços do pai, quando esse foi assassinado. Cai rolando pela vida até topar com a fronteira. Essa trincheira intransponível na cabeça dos ditadores de ordem. Fez a lição, que era preciso para entender e dominar situação. Nos dois lados da fronteira era o Patrão.  Isso foi por 30 anos, na época da ditadura, referencial naquela luta ancestral sem jamais arredar o pé pra gendameria ou federal. 


A mais alta nascente de rio e a mais próxima da fronteira, ficava na sua propriedade. Nós arredores da vertente construiu vários mangueirões pra abrigar e controlar a porcada contrabandeada. Nas cercanias também a construção de galão, acampamento de peão com fogo de chão. Muitos foram ficando até ficar. Depois de ter ficado eram chamados de agregados. 


No lado argentino não existia propriedade privada. Na verdade, área de segurança nacional, só existia a posse de um espaço determinado. O Seu José tinha grandes posses do outro lado e foi cedendo fracionado, a quem vinha lhe procurar, por não ter onde morar.  À foice e machado fazia roça, e o seu Biriva mandava semente de milho e abóbora. Depois uma porcada pra sociedade e o sujeito já era denominado Safristia. Coisa de artista. De fato, só pinta o retrato quem é da lida. Também fui posseiro no Cerro 7, cerca del cerro pontudo.


No fim da safra, engorda completa. É hora da porcada seguir a picada até a mangueira, do outro lado da fronteira.  Operação pra peão calejado e ambientado com o riscado de um trabalho sagrado, mas condenado pela lei. Me criei indo a esses galpões, ouvir as histórias e jogar baralho, ali eu aprendi sobre os atalhos que a vida ensina pra conviver com a Argentina. Eu sei e o lula devia saber pra conviver com o milei. Nem sempre dá pra seguir a lei. Paciência é uma arte que faz parte do currículo de experiência dos sobreviventes daquela querência.


Eu detesto a ditadura e a prepotência daquele gente decadente que tinha usurpado o poder e criava problemas. O paradoxo inconsistente é pensar que a democracia, que todo mundo queria, ajudou aquele lugar perder a razão de ser. E o Patrão continuou pelos galpões, ensinando estás lições e contando as suas histórias. Morreu na véspera do ano 2000. Ainda hoje não há quem diga, que não lembre com saudades do seu José Biriva.

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