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GERAL
18/03/2025 15:37

Migrante



Do norte do Luxemburgo para o sul do Brasil.

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Luxemburgo é um país no coração da Europa. Surgiu em 963, ao redor de um precipício que se tornou uma gigante fortaleza. Luxemburgo tem 2586 km2, com 82 km longitudinal e 57 km na transversal. 132 metros de altitude no ponto mais baixo, em Wasserbilling, na foz do Rio Sure e o Kneiff em Clervaux é o ponto mais alto a 560 metros. A curiosidade genial é que nenhum pingo de chuva ou nenhuma água de vertente, escorre para fora de Luxemburgo. O Rio Sure é o principal rio de Luxemburgo. Reúne as águas do norte, enquanto o seu principal afluente, o Rio Alzete, escorre do sul para o centro.

No último censo, Luxemburgo contava com 666 mil habitantes, aproximadamente. Três distritos e 13 cartões (estados), curiosamente com o nome da cidade mais importante de cada cantão, com total redondo de 100 municípios. Clervaux é a capital do cantão e também considerada a capital das Ardenas (mata escura). Clervaux é o maior estado e está localizado no extremo norte. Uma espécie de Amazonas tal e qual.

Luxemburgo hoje, é considerado o país mais rico do mundo. Mas houve um tempo que esta terra era o retrato da miséria. Matéria investigativa do jornal alemão apontava em 1814, que 'a população do norte de Luxemburgo era coesa, devido a pobreza, sem muita infiltração. Não atraía elementos estrangeiros. As pessoas eram de físico grosseiro e de pouca inclinação para artesanía e indústria. Sem espírito especulativo e pouca iniciativa ou desempenho intelectual'. Está semana revisitei várias aldeias, e parei na teia de imaginar que Pedro Álvares Cabral foi feliz por encontrar Porto Seguro. A viabilidade da agricultura das Ardenas ainda hoje é questionável. Extremamente mecanizada e subsidiada. Entre 1930 e 1980 a produção aumentou 10 vezes. Imagina a diferença de 1825 para 2025?

A década de 1820/30 foi a pior que se tem registro. Neste período começou as primeiras tentativas de migrar para o Brasil. Começou com uma tragédia. Em 14 de abril de 1828, aproximadamente 150 pessoas, originárias do sul de Luxemburgo, embarcaram no Rio Mosela para o difícil desafio. Navegaram o Mosela depois o Reno, completando a pé, chegaram ao Porto de Bremen. Porque Dom Pedro I fechou a costa brasileira para a navegação ou por não cumprirem os requisitos, não lhes foi permitido o embarque.  Voltaram sem nada e nenhuma comuna aceitou acolher os novos brasileiros. Acabaram em uma colina desabitada, numa das regiões mais frias, onde construíram alguns barracos e nunca mais sairiam de lá. A localidade passou a se chamar Novo Brasil e a rua principal, 'kale Rís' (arroz frio). Não existe mais ninguém, nem notícias de que exista algum descente. Até o local mudou de nome, chama Grevels.

O primeiro Luxemburgueses a chegar no Brasil foi o padre João Felipe Bettendorf, no dia 20 de janeiro de 1661. Fundador da cidade de Santarém. No sul do Brasil, o primeiro foi Peter Steil em 17 de agosto de 1828.  Mathias Mombach, com a família e as famílias Schuller, Stresser e Mannes. Além de Bley e Grein que fudaram a colônia de Rio Negro, no Paraná, são da primeira onda, começada em 1828.

Do cantão de Clervaux teve uma concentração de migrantes na direção do Brasil. Principalmente no período de 1861 a 1863. As famílias Bauler, Decker, Gomes, Juttel, Heidercheid, Hermann, Jüttel, Kalbuch, Kammers, Kaufman, kempner, Kleis, Kinnen, Koch, Löwen, Lux, May, Meyer, Muns, Olinguer, Perard, Poring, Reuter, Schapo, Schmidt, Schwinden, Theisges, Theissen, Turnês, Weber, Wilmes, Wilvert, e Zwang, chegaram e se instalaram na região de Florianópolis. Majoritariamente em São Pedro de Alcântara, Rancho Queimado, Taquaras, Angelina e Alfredo Wagner. Essa região concentra os imigrantes do cantão de Clervaux. Continuou depois com as famílias Gieres, Jacobi, Feilen, Leweck, Tholl, Schröder, Bertemes, Khurt.

No coração do cantão de Clervaux tem um mosteiro desativado. Fünfbrunnen/Cinqfontaine/Cinco Fontes. Foi centro de formação da congregação do Sagrado Coração de Jesus, SJC. Formava padres para missão com os migrantes Luxemburgueses e alemães, em Santa Catarina. Inclusive a diocese de santa Catarina, em sua fundação, o bispo Dom João Becker, nascido alemão, contava com 84 padres, 66 eram de língua alemã. O Cinqfontaine foi importante na formação de missionários para trabalhar no Brasil. O Cinqfontaine, também foi Campo de concentração de judeus, durante a segunda guerra. Agora vai ser transformado num memorial sobre os horrores do holocausto. Também houve uma boa predisposição que se provou assertivo para as congregações, que tinham nos cálculos do padre e matemático, Cahemsly, que era mais barato recuperar e reter 10 mil fiéis migrantes que conquistar 3 mil novas almas, na China.

O Brasil se tornou independente em 1822 e o que me é surpreendente é que as primeiras ideias de incentivar a imigração, foi pra povoar a nossa região da fronteira com a Argentina e o Paraguai, que já eram sociedades razoavelmente bem estruturadas, enquanto do nosso lado era sertão desabitado e havia receio de invasão das fronteiras. Foi por influência da imperatriz Maria Leopoldina que começou a política de incentivo a imigração, mas na primeira faze não chegou a fronteira. 

Outra no coração do cantão. A partir de 1825 houve a elaboração de um megaprojeto de navegação, posto em execução em 1827 e interrompido em 1830, na independência da Bélgica. Esse canal tinha como um dos objetivos, trazer dinamismo e facilitar o escoamento da produção desta região extremamente empobrecida. Talvez o maior projeto do mundo, que foi abandonado e esquecido. Pobreza.

O ser humano evoluiu enquanto era nômade.  Com a domesticação da agricultura, abandonou a vida nômade e a evolução desacelerou, e aqui estamos em um ponto de estagnação, com tendência a reversão. A vocação agrícola do norte de Luxemburgo é exemplo disso. Provisoriamente eu moro aqui, mas sou perseverante, um migrante de mim mesmo, que anda a esmo, na ânsia de me levar daqui.

 

 

 




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