Seu Horácio
Cidadão com estatura e padrão.
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Cidadão com estatura e padrão.
Horácio da Mota
Pra ninguém ficar perdido, linha São Mateus hoje, em tempos idos, era Escondido. Essa localidade está no limte da fronteira seca Brasil/Argentina. Essa localidade, na época da ditadura, foi o coração de negócios informais em âmbito internacional. No coração deste lugar, morava o seu Horácio.
Como se fosse um retrato pintado, ou um quadro do meu passado, a lembrança daquela morada é uma recordação de um tempo bom. A casa era de madeira de lei, coberta com tabuinha lascada. Nunca fora pintada. No quintal um poço tradicional com um bocal de madeira e uma série de pitangueiras preservam na sombra a história desta morada.
A fumaça na chaminé antes de bem clarear o dia, me dava a garantia, que eu precisava, para enfrentar a lida pra ganhar a vida.
O ano era 1978. A peste suína acentuou a nossa ruína. Pra completar, o meu pai sofreu um acidente e quebrou 3 costelas. Eu com 12 anos, filho mais velho, era o responsável pelo trabalho pesado. Arado e junta de boi, foi a rotina habitual, naquela luta ancestral pra superar o cerco da fome. Eu era um tipo franzino, mas o destino não permitiu outra escolha. Na quela terra bruta, com frequência, a minha resistência era posta a prova. Quando eu não aguentava o tirão, a salvação era o seu Horácio.
Horácio da Mota, proprietário da terra, onde nós éramos Meieiros e lindeiros. A fumaça na chaminé, confirmava que o seu Horácio já estava de pé, tomando seu chimarrão ao redor do fogão. A minha alegria era saber da garantia da sua assistência para qualquer emergência.
O seu Horácio era como uma estátua caminhando. Uma estátua esculpida pelo tempo em um cerne de pau ferro. Era como se fosse um estatuto de austeridade a balizar a comunidade. Era católico, mas não era religioso. Frequentava a comunidade só em caso de decisão de algum assunto sério. Muito raramente o vi fora da sua propriedade. Era Ele a dimensão da própria independência. Trazia estampado na palma da mãe a experiência que acumulou com paciência. Não falava da vida alheia. Roby, só peleia de galo. Nunca ouvi alterar a voz. Não lembro de vê-lo sorrir. Nunca vi ninguém duvidar do que ele dizia. Também não ouvi ninguém falar ou reclamar do que ele fazia. Com frequência eu ia a sua casa no final do dia, tomar um chimarrão e ouvir a explicação sobre assuntos que só ele sabia.
Gaúcho de nascimento. Seus ensinamentos eram inquestionáveis. Tinha uma entonação como quem falava com as mãos, quando queria chamar a atenção. Me dizia: 'Seu Ademir, da próxima vez que as suas vacas roceiras, invadirem o meu milharal, eu mesmo venho arrumar a sua cerca'. Não tinha como não se sentir absolutamente desconfortável e buscar resolver o problema.
Eu cresci com a presença do seu Horácio, na vizinhança, mas só na distância é que entendi e nunca mais encontrei nenhum cidadão com padrão de retidão impecável e comparável. Era como se a moral e a ética fora personalizada, eternizada em um memorial imortal na consciência de quem teve a sorte da convivência.
Sai pelo mundo, na minha vocação de forasteiro. Meu ofício é observar o comportamento de gente diferente. Certamente a fronteira tem alguma ciência que forja uma pessoa com tanta autenticidade. Era rústico, mas completo. Sem desvio. O nome Horácio perece um selo de garantia. Originário da mitologia, Horácio significa o que controla as horas, ou o tempo e a justiça.
Policial
Nota de Falecimento
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