A vida é uma jornada que não pode terminar em uma cruz na beira da estrada.
Viajeiro
Toda vez que eu pego a estrada na direção da saudade eu volto pra minha cidade. Santo Antônio sempre foi o meu ponto de chegada. Partida é uma música do João Chagas leite que acompanha a minha vida. Partir é ceder a tentação de ir, mas ter o prazer de ter pra onde voltar. Voltar sempre foi o meu pensamento. Se ainda não voltei é porque hoje sei e sou refém do sentimento que a vida só acontece em movimento.
Eu sei que um dia vou retornar e até já tenho o meu lugar reservado, no cemitério da linha São Mateus/São João, local que ajudei reformar e que evoluíu bastante, de lá pra cá. Na última vez que estive lá eu parei para observar. De lá da pra ver as duas propriedades que está na testa da fronteira. A propriedade do Hercílio e a antiga propriedade do seu José Biriva, que no passado tinham 27 moradores e agora só tem dois e bois. Característica diferente: o Hercílio foi comprando e incorporando e do outro lado o Seu José só tinha parceiros e agregados.
É bem visível que essa testa têm uma arteira que flui mas frequentemente sangra. A Br-163 neste trecho talvez seja a rodovia com o maior risco de acidente, no Brasil. Lembro de alguns amigos em uma mesa de bilhar falando num linguajar divertido, que era mais garantido esperar um caminhão de arroz tombar, que plantar.
Em outra oportunidade eu já procurei fazer essa demonstração sobre as dificuldades que essa rodovia cria para a população que vive nesta região. A rodovia sem acostamento, praticamente não permite que se caminhe ou ande de bicicleta ou a cavalo. Com trator ou carro de boi, é um terror. Muito difícil até para atravessar. Penso que as classes representativas deveriam encampar a ideia de cobrar que o DNIT possa exigir que se faça pelo menos terceira pista, refúgio e acostamento.
Provavelmente a profissão de caminhoneiro seja uma das profissões romantisadas e que esconde a cilada de uma profissão de alto risco e poucos benefícios. O Brasil só perde pra China e Índia, em números de mortes no trânsito. A população que mais morre, são homens entre os 20 e os 59 anos. Quem trabalha, geralmente trabalha por precisão de levar o pão para os seus. Deixar esses trabalhadores apenas na mão de Deus não dá. Vamos nos mobilizar para exigir reformas nessa rodovia, para viabilizar a vida de quem precisa dirigir. Também facilitar a vida de quem mora nas proximidades.
Nunca fui caminhoneiro, mas sou estradeiro. Duas semanas dirigindo pelo Reino Unido. Duas viagens por toda a Turquia, dirigindo. Muitos países aqui da Europa. 30 dias na Colômbia. Chile, Paraguai e Uruguai. Praticamente todas as províncias da Argentina. 7 anos na estrada viajando de carona, pelos 27 estados do Brasil e todos os países da América do Sul. 5 acidentes com perca total e mais 27 cirurgias, me ajudam a refletir sobre a urgência de tomar providências. As vítimas prioritárias são motoristas caminhoneiros e motoqueiro. Muito triste também foi ver o desespero dos caminhoneiros que se aventuraram a comprar um caminhão financiado e passaram a vida atolado nessa dívida.
Quase todos sonhamos em viajar. Poucas pessoas conseguem ficar a vida toda no mesmo lugar. A estrada não pode ser o problema, e nem o dilema, se vale a pena ariscar a vida, a qualquer saída. Essa estrada é a principal ligação com o mundo. Por isso merece nossa atenção.