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GERAL

Francisquinho

O retrato de uma existência negada

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Francisquinho
Paulo Ademir Braun

Francisquinho


Pobre é o sujeito que morre e não descobre a irrelevância da própria insignificância. A riqueza está em saber se enxergar no seu próprio lugar. Hoje me é difícil saber se o Francisquinho sabia. Somos adestrados no ambiente capitalista, e a primeira pista para decretar se o sujeito é alguém é as posses que tem. Esta é a vida, como se fosse uma escada de vidro invertida. Na simbologia que trazia, Francisquinho reluzia uma autoexplicação. Acampado num galpão de chão batido, escondido no meio do bananal, propriedade do seu Arthur Grade, na Linha Glória. No galpão, um fogo de chão esquentava e cozinhava o guisado improvisado, picado pelo destino. Triste sina do coitado, que a vida lhe havia negado direitos fundamentais. Parecia um bicho alçado, acuado, sem posses e sem capital que lhe imprimisse valor. Mas tinha um nome: Francisco.
Portador do paradoxo que, na época, eu não atinava do que isso valia. Ele não tinha nada de valor, mas parecia que sabia que tinha uma sesmaria de sonhos, que muito lhe valia. Não tinha nada a perder e nem como retroceder. Francisco significa francês livre ou francês que se livrou da França. Parecia uma criança ou um bicho de estimação que se perdeu na mudança.
Francisquinho caiu certinho para o seu porte franzino e a guaiaca sem pataca. Sujeito simpático. Seus caminhos eram clarinhos; seguia sem medo de errar, que, para qualquer rumo que fosse, a vida só poderia melhorar. Não importa a posição, a felicidade está na capacidade de melhorar. A felicidade se faz toda vez que a vida melhora. A felicidade é a recompensa para a capacidade de melhorar. A vida do Francisquinho tinha muito espaço para ser feliz.
Eu sou de origem pobre; meu pai, com um gesto nobre, arrumou cama e comida e umas changas pro Francisquinho começar a vida. O primeiro vizinho, seu Nezinho, construiu um galpão, coberto com cartão, para o Francisquinho morar. Não tardou semestre, e um sujeito que não presta pôs fogo em sua morada, não restando nada outra vez.
Seu José Biriva, tinha a tradição, lhe arrumou outro galpão e terra para plantar. Muitas vezes, nas minhas andanças de pia, fui lá tomar uns chimarrões. Não lembro dele contar nada do seu passado. De onde vinha, se tinha família ou documento, ninguém soube.
Uma cruz na volta da estrada marcou o lugar onde ele foi encontrado degolado. Por muitos anos, eu acendia a única vela na cruz do cemitério, no dia de finados.
Criou-se um fantasma pra mão que empenhou a foice. Foi se perdendo na falta de testemunha para apontar o culpado. O coitado foi enterrado e desapareceu com as cruzes de madeira. Descansou. Paciência. Quem será, afinal, que talvez ainda enfrente o tribunal da sua própria consciência?

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