Santarém
A Princesa do Tapajós continua refém.
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A Princesa do Tapajós continua refém.
Santarém
O povo de Santarém me recebeu muito bem. Foram quase 30 dias de alegria. Gente simples com sutileza, inteligência e perspicácia ancoradas na força histórica de resistência. A minha frequência bateu no ritmo de Santarém e eu me senti tão bem que fui doar meu sangue e permanecer pulsando nessa terra. Santarém é uma cidade que foi construída pelos descendentes sobreviventes dos povos originários, mas o calvário da colonização fica dourado no pôr do sol que se esconde no porto, de onde uma Santarém refém sente que a esperança está sufocada nas águas esverdeadas do Tapajós, espelhando uma metáfora na residência de sujar suas águas misturadas ao Amazonas. Os 161 anos de residência à colonização tinham esse brio que sumiu numa Santarém sem alma. Existem muitas tentativas de invocar os espíritos ancestrais de um povo que foi dizimado. Que o espírito desta gente um dia vai se revoltar e se vingar. Não vai. É só mais uma narrativa de conformação.
O ser humano é um animal em formação. A evolução é lenta. A capacidade de criar narrativas é o cordão umbilical desta evolução. Junto com a capacidade de criar narrativas veio o salto em criar narrativas ficcionais, mas por trás a decepção e o atrofiamento amarrado a crença nas narrativas de ficção. A crença é o calcanhar de Aquiles e as falsas narrativas a maior arma de exterminação, usada pelos colonizadores europeus. A arma das falsas narrativas foi usada com precisão para reduzir os nativos que eram aproximadamente 8 milhões, para hoje só 170 mil, no Brasil. Destes 8 milhões, 5 milhões viviam na Amazônia. Os povos originários tinham suas crenças, mas a invasão do catolicismo usado como instrumento de subjugação, dificultou e vai dificultar a manutenção e a evolução destes povos, assim como aniquilou e está acabando com a capacidade crítica do Brasil como um todo.
Não existe nenhuma prova factual que Jesus realmente existiu. As narrativas sobre é que foram bem aperfeiçoada ao longo do tempo. O aperfeiçoamento deste instrumento de subjugação tem reflexo bem evidente. A nossa seleção que sempre foi irreverente virou um bando decadentes com 22 jogadores ligados ao evangelistão orquestrado pelos americanos para nos colonizar novamente. A arma das religiões é tão eficiente que ficou evidente já na semana seguinte ao Brasil ser acachapado, nos jogos indígenas em Altamira, onde observei que os jogadores da tribo campeão, Gaviões Kyikatêjê, apenas um jogador não fez o sinal da cruz estampando 350 anos de dominação.
A tristeza é que a capacidade humana de criar narrativas é irmã siamesa da crença. A marginalidade dos poucos criadores de narrativas de ficção em contraposição à vulnerabilidade e amplidão dos que crê, vai extinguir a humanidade. Na verdade me interessa comparar os fatos para que ninguém ouse defender o afudador de Santarém e nem as falsas narrativas.
Eu morei mais de 5 anos em Luxemburgo e seguramente aprendi mais com os nativos em uma semana em Altamira. No primeiro dia em Santarém eu fui a um show de música no teatro da cultura. 31 testemunhas para uma espetáculo em que se apresentaram mais de 10 artistas. De cortesia no mesmo dia conheci três escritores, quantidade que provavelmente nem exita entre os luxemburgueses. Nem atleta, nem artista. No país mais rico do mundo, não se cria. O dinheiro atrofia. Nunca ouvi falar que exista em Luxemburgo um cantor nacional. É extremamente simbólico e exemplar o que eu acompanhei na última semana, como se fosse um manifesto, a canção de protesto, Na Mão do Palhaço, mostrando que a Vida é trapezista, no circo da Ordem e do Progresso, Jana Figarella, mulher predestinada, representando Santarém, venceu o festival nacional da canção. A luz da razão, pra que ninguém se deixe enganar, são os nossos nativos que deveriam sair pra colonizar.
A fé remove montanha. A ganância também. Fui pessoalmente ver o que aconteceu em Serra Pelada, e encontrei um lago de 160 metros de profundidade, onde antes era a serra. A fé fica no presente e a esperança, mais a frente. A Serra Pelada é um lago que afogou a esperança que ficou no passado enquanto o mosteiro de Montserrat, na Espanha, está lá e eu também fui lá visitar, pra tentar entender o que a fé é capaz de fazer. Inácio Lopes, de Loyola, foi lá confessar e se arrependeu do passado errado de militar que ele viveu. A partir da estada em Montserrat, ele passou a se dedicar a fundação da Companhia de Jesus, uma multinacional da fé. Uma espécie de Vale, só pra comparar, e ficar aqui no Pará, que é de onde eu quero falar e vim pra cá para entender. Antes da Vale começar, Parauapebas era "rio de águas rasas" que a mineração da Vale transformou numa grande cidade. A Vale é uma multinacional de ferro que foi daqui pra lá. A Companhia de Jesus veio de lá pra cá, para garimpar "almas" e territórios. Fez bem e se instalou em Santarém, uma das maiores concentrações humanas daquela época. Mas tinha um porém na defição dos portugueses alinhados a igreja católica, "indo não tem alma". Calma.
Desde 1991 eu não nego a ninguém que meu desejo era vir pra Santarém. Quem leu o Alquimista de Paulo Coelho vai me ver neste espelho. Sou cidadão luxemburguês e só agora lá em Luxemburgo eu fui saber que quem conseguiu ludibriar os nativos de Santarém foi um luxemburguês, que era da Jesus Company (jesuíta).
Desde que Constantino autorizou e Jesus passou a valer, as mulheres do mundo "civilizado", as mulheres na melhor possibilidade, só ornamentavam. Antes da chegada do Luxemburguês João Felipe Bettendorf, as famílias da região da Foz do Tapajós tinham várias formas de organização e a mulher tinha protagonismo. Moaçara (professora) se chamava a líder que chefiava o povo Tapajós. Sempre uma mulher preparada pra substituir outra mulher. Esse povo era tão grandioso e bem organizado que chegou a ter um exército com 60 mil guerreiros armados. Os europeus levaram mais de 160 anos para conseguir invadir essa região. A primeira vez que os europeus se confrontaram com esse exército, pode ter sido em uma ocasião que estavam só as mulheres, tanto que deram o nome a essas guerreiras de Amazonas.
Esse povo produzia cerâmicas a milênios. Fragmentos de cerâmicas de 8 mil anos, foram encontradas por aqui. (Os incas e maias tinham apenas a metade deste histórico cronológico). Segundo o historiador Charles Mann, Santarém era uma das maiores cidades da época e a foz do Tapajós, a maior concentração de pessoas do mundo. A decadência destas civilizações tem a mão do padre João Felipe Bettendorf e os propósitos da Company de Jesus.
A poucos dias a ONU apontou que a escravidão africana foi o pior crime da humanidade. Falta reconhecer que o extermínio dos povos indígenas, das Américas, foi um dos maiores genocídio que a humanidade já cometeu. Uma população que só no Brasil, estimativas indicam que existiam mais de 8 milhões, hoje só restam 170 mil. Ou seja: restam 5 de cada 100. Amém.
João Felipe Bettendorf leva a fama de ser o fundador de Santarém. Ainda hoje distribuem medalhas comemorativas por aqui, pra se ter uma dimensão do colonialismo mental. Ele fez esse povo acreditar em um Deus, que nunca antes veio pra cá. Ele também trouxe o pecado e o diabo para esse paraíso, os quais foram usados como arma de coação. Passou a escrever catecismo e traduzir para o idioma local. Catequizar é sinônimo de dominar.
Para facilitar o controle sobre os corpos femininos, acabou com a poligamia, construindo campos de concentração para mulheres solteiras, as Madalenas, de onde só sairiam casadas com homens cristãos. Eu não encontrei nenhuma referência às casas de Madalenas anteriores a estas criadas aqui. As casas de Madalenas se tornaram comuns na Europa. A última fechou apenas a 30 anos, na Irlanda. Mas o confinamento das mulheres continua talvez pior hoje em dia, num discurso conservador religioso, controlando a roupa, o cabelo... Pecaminando os corpos, sexo, pensamentos... fidelidade a um marido proprietário e todo tipo de medo psicológico.
João Felipe Bettendorf Instalou o patriarcado, casando Moaçara com um maioral, convertido, que recebeu o nome cristão de Roque, onde ela passou a ter apenas um peso ornamental. A final essa terra teria sido muito mais feliz se o luxemburguês não tivesse vencido o Atlântico.