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Sexta-feira Santa: o silêncio da cruz que toca o coração

Celebração conduziu os fiéis por momentos profundos de fé, contemplação e reflexão sobre o sacrifício e o amor de Cristo

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Sexta-feira Santa: o silêncio da cruz que toca o coração
Mídia Sudoeste

A tarde de Sexta-feira Santa chega envolvida por um silêncio diferente. Não é apenas a ausência de palavras. É um silêncio que fala ao coração, que convida à reflexão e que lembra à humanidade o momento mais profundo da história da salvação.


Na Paróquia Santo Antonio de Pádua, os fiéis começam a se reunir dentro da igreja. O ambiente transmite recolhimento e respeito. Os altares permanecem sem toalhas, sem velas e sem ornamentos. As imagens podem estar cobertas. Tudo expressa luto e contemplação.



Este é o dia em que a Igreja recorda a morte de Jesus Cristo. Um dia marcado pelo jejum, pelo silêncio e pela oração. Um momento em que cada pessoa é convidada a olhar para dentro de si e refletir sobre o amor que levou Cristo a entregar a própria vida.


A celebração começa de forma profundamente simbólica. O sacerdote entra em silêncio e, diante do altar, se prostra completamente no chão. É um gesto antigo, mas carregado de um significado espiritual imenso.


Ao se colocar ao nível do chão, o celebrante reconhece a própria fragilidade humana diante de Deus. É um ato de humildade extrema, que lembra que o ser humano é pó e depende totalmente da graça divina.


Esse gesto também expressa a profunda tristeza da Igreja pela morte de Cristo. A comunidade se une espiritualmente ao sofrimento vivido por Jesus no Jardim das Oliveiras, quando Ele também se prostrou em oração diante do peso da Paixão que estava por vir.


Enquanto o celebrante permanece prostrado, toda a assembleia se ajoelha. Nenhuma palavra é pronunciada. O silêncio toma conta da igreja.


Mas esse silêncio não é vazio. Ele se torna uma oração profunda. Cada pessoa é convidada a refletir sobre o peso do sacrifício de Cristo, sobre as próprias escolhas e sobre o amor que foi capaz de chegar até a cruz.


Depois desse momento de recolhimento, acontece um dos gestos mais marcantes da celebração: o desvelamento da cruz.


A cruz entra na igreja ainda coberta. O sacerdote a recebe e, em três momentos, retira lentamente o véu que a cobre.


Primeiro é revelada uma parte. Depois outra. Por fim, a cruz é apresentada por completo.


A cada etapa, ela é elevada e proclamada a frase que ecoa profundamente na fé cristã: “Eis o lenho da Cruz, no qual pendeu a salvação do mundo.”


A assembleia responde com reverência: “Vinde, adoremos.”


Esse gesto simboliza que aquilo que antes parecia incompreendido agora se revela como caminho de salvação. A cruz deixa de ser vista apenas como instrumento de sofrimento e passa a ser reconhecida como sinal do amor mais profundo que já existiu.


Foi nela que Cristo entregou tudo. Não guardou nada para si. Cada sofrimento, cada ferida e cada momento de dor se transformaram em oferta pela humanidade.


Em seguida acontece um dos momentos mais íntimos da celebração: o beijo na cruz.


Um a um, os fiéis se aproximam em silêncio. Caminham lentamente, muitas vezes com os olhos cheios de lágrimas. Alguns tocam a cruz com delicadeza. Outros permanecem alguns instantes diante dela antes de se inclinar.


Quando beijam a cruz, não realizam apenas um gesto de devoção. É também um sinal de aceitação. É como se cada fiel dissesse, em silêncio, que deseja caminhar com Cristo mesmo diante das próprias dificuldades.


Beijar a cruz significa reconhecer que as cruzes da vida fazem parte do caminho, mas que elas podem ser vividas em união com aquele que entregou a própria vida por amor.


É um momento profundo de reconciliação, de oração e de paz interior. Muitos encontram ali um espaço para refletir, pedir perdão e renovar a fé.


Mas a Sexta-feira Santa ainda reserva um momento que toca profundamente a sensibilidade dos fiéis: a Procissão do Senhor Morto.


A imagem de Jesus é preparada para sair em procissão. Não se trata do Cristo ressuscitado, mas do Cristo que entregou a vida pela humanidade.


Ver o Senhor da vida representado sem vida causa um impacto profundo. Esse momento convida cada pessoa a refletir sobre a gravidade do pecado, mas também sobre a grandeza do amor divino.


Durante a procissão, os fiéis caminham em silêncio. Não há pressa. Cada passo se transforma em oração.


A imagem do Senhor Morto é conduzida com respeito e cuidado. Esse gesto lembra que, naquele momento da história, Jesus já não podia fazer nada por si mesmo. Foram outros que o carregaram e cuidaram de seu corpo.


Por isso, carregar a imagem se torna também um gesto de caridade. É como se cada fiel fosse chamado a ser as mãos que acolhem, que cuidam e que oferecem dignidade.


Esse gesto também recorda que, ainda hoje, existem muitos “corpos feridos” no mundo. Pessoas esquecidas, pobres, sofridas e abandonadas. Cuidar delas é uma forma concreta de continuar cuidando de Cristo.


Enquanto a procissão avança, uma antiga reflexão ecoa na memória dos fiéis: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor.”


Essa frase convida cada pessoa a parar, olhar e refletir sobre o sofrimento vivido por Cristo e sobre o amor que o levou a enfrentar a cruz.


Ao retornar à igreja, a imagem do Senhor Morto é colocada para a visitação dos fiéis. Muitos permanecem em silêncio diante dela. Alguns rezam. Outros apenas contemplam.


É um momento de profunda interiorização.


A Sexta-feira Santa não termina com palavras de celebração. Ela termina em silêncio.


Mas esse silêncio não significa ausência de esperança.


Pelo contrário. É um silêncio que prepara o coração para aquilo que virá.


Porque mesmo diante da dor e da cruz, a fé cristã lembra que o amor de Deus é maior que qualquer sofrimento.


E que, após a noite mais escura, sempre nasce a luz da Ressurreição.


 

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