Epidemia da solidão avança em um mundo hiperconectado
Mesmo com tecnologia onipresente, isolamento cresce e já é tratado pela OMS como grave problema de saúde pública
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Mesmo com tecnologia onipresente, isolamento cresce e já é tratado pela OMS como grave problema de saúde pública
Em um mundo marcado pela hiperconexão digital, a solidão surge como um dos grandes paradoxos do século XXI. Nunca foi tão fácil se comunicar virtualmente, mas, ao mesmo tempo, milhões de pessoas relatam sentir-se emocionalmente isoladas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a solidão como um grave problema de saúde pública, com impactos comparáveis aos do tabagismo e da obesidade.
De acordo com a OMS, uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, condição associada a cerca de 871 mil mortes por ano, o equivalente a aproximadamente 100 óbitos por hora. O sentimento, definido como a lacuna dolorosa entre as conexões sociais desejadas e as reais, afeta tanto a saúde mental quanto a física, ampliando riscos de ansiedade, depressão, doenças cardiovasculares, AVC, declínio cognitivo e morte precoce.
No Brasil, estudos indicam que metade da população se sente sozinha, e ao menos um em cada quatro adultos relata esse sentimento de forma recorrente. Entre jovens de 13 a 29 anos, os números são ainda mais preocupantes: entre 17% e 21% afirmam sentir solidão, especialmente adolescentes e integrantes da chamada Geração Z, fortemente expostos ao uso intenso de telas, redes sociais e, mais recentemente, ao home office.
Especialistas apontam que as redes sociais contribuem para uma superficialidade digital. Curtidas, comentários e visualizações criam a ilusão de conexão, mas não substituem o contato humano direto, como conversas profundas e abraços. A busca constante por uma vida “perfeita” nas plataformas digitais intensifica comparações, frustrações e o sentimento de não pertencimento, enfraquecendo vínculos reais.
O tema ganhou destaque internacional em debates como o SXSW 2024, onde a solidão foi tratada como reflexo de uma sociedade cada vez mais individualista, competitiva e polarizada. Pesquisas da Gallup e da Meta revelam que, embora 72% das pessoas se considerem conectadas, 24% afirmam sentir-se muito ou bastante solitárias, evidenciando que presença virtual não significa vínculo emocional.
A solidão atinge de forma mais intensa grupos vulneráveis, como idosos, pessoas com deficiência, refugiados, populações indígenas, minorias étnicas e outros grupos de pessoas que enfrentam discriminação e barreiras adicionais para estabelecer conexões sociais. Em países de baixa e média renda, o índice chega a 24%, mais que o dobro do observado em países de alta renda.
Além dos danos à saúde, o isolamento social impacta educação, trabalho e economia. Jovens solitários têm maior probabilidade de baixo rendimento escolar, enquanto adultos enfrentam mais dificuldades para manter empregos e renda estável. Em nível coletivo, a fragilização dos laços sociais reduz a coesão comunitária e gera prejuízos bilionários em produtividade e custos com saúde.
Como caminhos para enfrentar essa epidemia silenciosa, especialistas e a OMS defendem uma abordagem integrada. Entre as principais estratégias estão o fortalecimento de conexões presenciais, o uso consciente da tecnologia como ferramenta e não substituto das relações, a implementação de políticas públicas de combate ao isolamento social e a ampliação do acesso a apoio psicológico. A valorização da autenticidade, da imperfeição e do contato com a natureza também é apontada como fundamental para reconstruir laços mais profundos e significativos.
A solidão, mais do que uma experiência individual, revela um desafio coletivo. Em um mundo cada vez mais conectado por telas, o grande desafio é garantir que essa conexão seja, de fato, humana.
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