EM TEMPOS DE CTRL C E CTRL V, QUEM VAI PRA RUA?
Radialistas. Locutores. Comunicadores.
Vocês que emprestam a voz para ler, ao vivo, as informações que brotam nos portais e canais de notícia, olhem para o microfone agora e me respondam com sinceridade:
Qual foi a última vez que você falou o nome do repórter?
Qual foi a última vez que você deu o crédito ao canal que ele representa? Quando foi que você teve a grandeza de reconhecer, no ar, quem foi que colocou o pé no barro para apurar o que você acaba de ler com tanta facilidade?
Essa não é uma pergunta confortável. Mas hoje, 16 de fevereiro de 2026, Dia do Repórter, ela se faz necessária. Antes de qualquer homenagem vazia, precisamos de um espelho.
A Engrenagem do Invisível
Vivemos a era do atalho. A era onde a informação se multiplica em segundos, mas o reconhecimento se perde na pressa. Enquanto o "Ctrl C + Ctrl V" dita o ritmo das redações preguiçosas, existe um alguém invisível nessa engrenagem:
Alguém que acordou quando a cidade ainda dormia.
Alguém que sentiu o chicote da chuva e o peso do sol forte.
Alguém que foi para a madrugada atender uma ocorrência enquanto o mundo descansava.
Alguém que teve a decência de ouvir os dois lados antes de digitar a primeira letra.
Esse alguém é o repórter. E sem ele, o seu microfone seria apenas um objeto mudo.
O Retrocesso da Pressa
Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca estivemos tão confusos. Somos bombardeados por recortes e opiniões, e é justamente nesse caos que a missão do repórter se torna sagrada: checar, confirmar, ouvir e contextualizar.
Isso não é um detalhe. É responsabilidade. Mas a verdade é indigesta: hoje, é raro ver quem apure sequer uma fonte antes de publicar. A opinião corre mais que o fato. A pressa virou prioridade. E deixem-me dizer: isso não é evolução. É retrocesso.
O Veneno do Ego
Eu sei que muitos vão torcer o nariz. Mas não é reclamação, é um apontamento técnico e moral. A comunicação tornou-se preguiçosa e, pior, ingrata. É incoerente usar o suor alheio sem citar a fonte. Se você não reconhece o colega hoje, com que autoridade moral vai exigir seriedade amanhã?
Não estou falando de lei. Estou falando de ética. De caráter profissional. Dar crédito não é favor; é respeito.
O problema não é a falta de tempo, é o ego. O ego que tenta ser maior que a notícia. E quando o ego fala mais alto, a comunicação perde a essência, perde a grandeza e, finalmente, perde a credibilidade.
O Compromisso com a Verdade
Nós, contadores de histórias, temos um pacto com o real. Se não respeitarmos os canais que se dedicam, se não dermos nome aos bois, como vamos exigir que a audiência nos leve a sério? É um ciclo: se você valoriza quem apura, você valoriza a verdade. Se desvaloriza o colega, você se autossabota. Quando o setor não se respeita, o mercado inteiro adoece.
Neste Dia do Repórter, classe que admiro e da qual faço parte, deixo o meu apelo, seja você do rádio, da TV, do portal ou do digital:
Fale o nome do repórter. Fale o nome do canal. Dê o crédito.
Quando você reconhece o outro, você fortalece a comunicação. E quando a comunicação é forte, a verdade prevalece. E isso, hoje, é mais urgente do que nunca.
É ASSIM QUE EU PENSO.
Por Junior Aurélio Vieira de Oliveira
